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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Há um poeta na morgue da incompreensão


Jaz o poeta pelo difamar da sua sujeição. Tanta palavra rude rodeou o seu extenso caminhar, sem que pudesse apresentar uma simples desculpa ou uma singela explicação. As palavras que foram suas começaram a não ter a força de um passado recente e outro mais longínquo. Quase se sentiu amordaçado por uma censura que lhe espetou a estocada final. Ele que definiu aquele movimento depauperante e ardiloso, como armadilha da ultimação, e jamais buscou outras palavras para a demanda. Deixou de se alimentar dos seus poemas e de beber na fonte de seus versos. Deixou passar o tempo sem rejeitar tal desígnio, mal sentindo o ultraje do fervor que o foi aprisionando em todos os sentidos. Começou por cambalear e depois perdeu a audição. Sua visão começou por se turvar e o raquitismo de seu físico emoldurou o espaço de todos os comentários. Nunca mais se leu e ouviu uma palavra sua e apenas restaram as que tinha inventado até ao início desta contenda, mas omitidas pela vil opressão. Nunca mais se sentiu o mesmo, até ao fim que foi o seu. Acabou um dia ali, em abrupta queda, sem que ninguém por tal desse. Findou-se. Todavia, alguém comentou, ainda: - Há um poeta esquecido na morgue da incompreensão.

 António MR Martins

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