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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Reza, Maria


Suam no trabalho as curvadas bestas
e não são bestas
são homens, Maria!

Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos
e não são cães
são seres humanos, Maria!

Feras matam velhos, mulheres e crianças
e não são feras, são homens
e os velhos, as mulheres e as crianças
São os nossos pais
nossas irmãs e nossos filhos, Maria!

Crias morrem á míngua de pão
vermes na rua estendem a mão a caridade
e nem crias nem vermes são
mas aleijados meninos sem casa, Maria!

Do ódio e da guerra dos homens
das mães e das filhas violadas
das crianças mortas de anemia
e de todos os que apodrecem nos calabouços
cresce no mundo o girassol da esperança

Ah! Maria
põe as mãos e reza.
Pelos homens todos
e negros de toda a parte
Põe as mãos
e reza, Maria!

José Craveirinha

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A noite veste-se de desejo


Na delicadeza
com que a tarde
se despede,
o corpo ganha
a vontade
de se estender
no horizonte.
Fecho os olhos
e embalo-me
no teu sorriso.
Sei que me anseias
nos teus braços.
Sei que vais alterar
o tempo
antecipando o gesto
da tua boca na minha.
Sinto que sou o espaço
que liga o real ao sonho,
que sou o corpo
onde te deitas
e descansas a alma.
Serei o que quiseres,
enquanto matarmos a sede
da mesma fonte.

O sol põe-se,
a noite veste-se de desejo.

Vanda Paz

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Da solidão



Na minha opinião, a solidão é o pior de todos os males. Ao contrário da fome, da sede, da doença que - quando nos atingem, nos forçam a combatê-las - a solidão muitas vezes se mascara com uma aura de virtude e renúncia.
Não é nada disso. Embora seja importante ter momentos só para nós, a vida neste planeta está ligada aos outros. Precisamos nos despir de todos os nossos bloqueios, e sair em busca de amor, carinho, companhia.
Não se envergonhe de agir assim; é a luta mais digna que alguém pode travar.Se envergonhe, isto sim, de não fazer o que seu coração pede.
O resto são conselhos. E preconceitos de quem não tem coragem de lutar.

Paulo Coelho

Folha do pensamento


Na tua mão
uma folha de árvore;
sentas-te à sua sombra.
Acaricias a folha,
fixas o teu olhar,
corres a vida:
sorris, choras.
Com coisas belas
e sonhos perdidos
nessa corrida pela vida.
Olhas para diante
e vês a sombra de alguém,
mas quem?
Daquele
que segue o teu caminho,
que te avisa e aconselha,
daquele
que não te quer sem destino:
onde estou, para onde vou…
A estrada em que estamos,
leva-te à que procuramos:
a estrada da Vida …
Sorris para mim,
beijas a folha e partes …

José Manuel Brazão

domingo, 24 de agosto de 2008

Choro




Nesta noite sombria,
Aqui neste lugar desolado,
Choro de olhos secos, sem vida...
Olho este papel branco,
Faço dele a minha mortalha!...
Lágrimas de sangue saltam
Deste coração solitário...
Ninguém as vê... Ninguém as ouve...
Choro por não ter coragem!...
Choro por aqueles olhos
Puros, sinceros, tão meigos...
Choro por um abraço que não vem,
Por uma palavra que não chega
Por uma voz doce... Que não ouço...
Tudo o que resta é este silencio...
Um silêncio ensurdecedor,
Que vai destruindo a vontade,
A força de viver,
A capacidade de erguer do chão...
E apenas choro...

João Almeida (Jota)

Delírio




Esgravato silêncios na penumbra da minha alma tentado chegar à sombra do meu olhar. Renasço suspiro em suspiro libertando-me de outras mortes, de outras faces. Segredo ao poema a cumplicidade de cada palavra para que não se afogue a mensagem. Soltam-se da palma da minha mão murmúrios de olhos inchados que se dissipam no orvalho de cada manhã.


Penso-te numa folha que se aninhou no meu regaço.

Vanda Paz (texto e imagem)

Saudade é um mal de que se gosta e um bem de que se padece


Saudades! Quem as não tem?

Eu tenho as duas a que dei título.

Gosto de ter saudades de todos os que amo, daqueles que me amam, dos que gostam de mim, dos que me acarinham e que eu procuro corresponder de coração aberto.
Padeço de saudades por aqueles que amo e estão distantes de mim. Alguns, após estarmos juntos, já me deixam nesta situação: com saudades e ansioso pelo próximo encontro.

Por ti, João:
Sinto ambas. Gosto de ter saudades do meu filho, mas como te sinto muito próximo, não padeço tanto!
As minhas saudades por ti são uma cumplicidade com o silêncio e com o Universo!
Quando estou a editar e publicar o Blog és o meu companheiro, porque a flor e a cor que gostas é a rosa amarela. O logo deste Blog é um ramo de rosas amarelas.
Porque és o meu companheiro?
Quando abro o Blog olho logo para as rosas e vejo a tua imagem. Sorrio para ti e as rosas amarelas ficam mais viçosas...
Fica em Paz e com muita Luz

sábado, 23 de agosto de 2008

Filhos do Universo


Nossos filhos
vão partindo,
deixando Luz,
cheiro e amor.
Escolhem o seu caminho:
aqui com oportunidades,
ali com contrariedades.


Mãe e pai resignados,
continuam vigilantes
e expectantes.

Mãe e pai cansados,
continuam a estrada da Vida.

Param e olham;
vêem os seus filhos,
serem filhos do Universo!

José Manuel Brazão

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Entre o perguntar e o agir



Nos anos sessenta John Kennedy, penso que no discurso de tomada de posse como presidente, disse: "não perguntem o que a América pode fazer por vós, mas sim o que podem vocês fazer pela América".
Com pequenitas alterações, esta frase resume uma filosofia que devia ser a de vida para muitas pessoas. Senão para todas. Não perguntem o que os outros podem fazer por vós. Perguntem o que vocês podem fazer por vocês próprios, e pelos outros claro.
Por nós próprios, porque, quando temos algum problema é, de facto, mais fácil, perguntar aos amigos – o que podes fazer para me resolver este problema? Não pode haver atitude mais errada. Os amigos podem ajudar a encontrar soluções (e os verdadeiros amigos, aqueles que se importam, de certeza que as vão procurar sem que lhes peçam) mas não nos podem resolver os problemas. Isso é uma coisa que só nós podemos fazer. Só nós podemos decidir qual o caminho a seguir porque qualquer consequência do que façamos, será para nós. E depois não podemos, nem devemos querer, culpar os amigos por teremos feito aquilo que nos aconselharam (porque os amigos apenas aconselham, nada mais). Falar com os amigos, desabafar traz-nos, muitas vezes, outras formas de ver os problemas. Porque nos fazem perguntas que nós não nos lembramos de fazer antes, porque vêem os problemas doutra forma. Nada melhor que contar com um bom amigo para nos ajudar. Não para solucionar.
Ed. Howe disse "quando o teu amigo atravessar alguma aflição, não o aborreças perguntando-lhe o que podes fazer por ele. Pensa em algo apropriado e fá-lo". Ou seja, o que nós podemos fazer pelos outros. Se desabafam connosco, se nos contam o que se passa, devemos ser ouvintes atentos, tentar ver o outro lado, às vezes fazer o papel de advogado do diabo e defender teses contrárias àquelas em que acreditamos, apenas e só para ajudar a encontrar uma solução (que terá, deverá e só poderá ser aquela que o próprio quiser). Se não sabemos o que se passa, se apenas sabemos, por qualquer razão, que se passa alguma coisa, então a melhor solução é apoiar, fazendo com que o nosso amigo saiba que pode contar connosco quando quiser. Porque a amizade reside nisto. Saber dar e saber receber. Sem exigências. Sem excessos. Sem agradecimentos. Porque a amizade sente-se, não se agradece.
Pedra Filosofal
Foto de Vladimir Joska

Coração de mulher


Todos te olham,
todos te admiram.
Uns pela beleza exterior,
outros pela beleza interior.
Esta é infindável,
pelo encanto que transmites,
pelo amor que partilhas,
sem nada pedir.
Dar, dar e dar,
que te cria desilusões,
angústias.
Mulher ternurenta,
quase desistes,
pelos teus sonhos;
brotas lágrimas
como se fosse noite.
Atrás de cada noite,
virá um novo dia.
Numa dessas manhãs,
terás um sol nascente,
com tanta luz,
que encontrarás o caminho
que tanto procuras.
Caminho muito iluminado,
pelo teu coração,
coração de mulher.

José Manuel Brazão